Ressaca

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Ressaca. Tem um mar revolto fazendo tempestade dentro do copo meio vazio do meu peito.
E as ondas batem nas pedras do meu pensamento. Pedras estas no meio de um caminho pra lugar nenhum. As ondas batem. As pedras não quebram, tampouco aquele copo meio vazio.
E aqueles pensamentos que não dão pra esquecer… ah aqueles pensamentos. Mais duros que as pedras, mais densos que as águas dessa ressaca toda. E afundam.
Afundam em um canto tão sombrio daquele peito de copo metade vazio. E aí o pensamento faz doer o peito e o peito irrita as águas e as aguas batem nas pedras e a ressaca inunda o copo meio vazio que até chega a transbordar.
Pensar demais é provocar ressaca no peito de copo meio vazio.
Pensar de menos é deixar o mar do copo manso. Mansinho. E, por tanto, sempre metade vazio.
Eu gosto da inquietude das aguas que batem nas pedras de caminho pra lugar nenhum e dos pensamentos densos que não se pode esquecer e de como tudo isso transborda de energia o meu peito de pessimismo medido por um copo com água pela metade.
Ressaca. Ou o copo seca. Ou o copo enche. Ou seca e enche e enche e seca num vai e vem feito o das ondas.
Ressaca. Boca cheia de sede.
Ressaca é a vontade incansável e incurável de ter dentro do peito um copo metade cheio.

Te demores.

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SerenityRose

{{ Trilha sonora sugerida }}  

Lá no fundo, no fundinho do nosso coração a gente sabe: o importante é a gente gostar da gente. Mas é tão bom quando este gostar parte de outra parte também, não é?

Quando a gente se sente gostado parece até que ficamos mais bonitos.

Mas quando nos sentimos gastados, dói tudo. E o coração é o que dói mais.

Sabe por quê? Porque o coração não é feito osso de perna que quando parte cicatriza e fica mais forte. Coração é bicho danado de ruim pra partir e quando parte, parte por inteiro e faz sentir dor em toda parte.

Coração parte e faz o corpo inteiro partir. Faz a gente querer partir. Pra bem longe. Para aquele lugar da nossa consciência onde mora a parte do pensamento que sabe que o que vale à pena é partir pro nosso partido.

Uns dizem que foi a Frida quem disse. Outros dizem quem foi a atriz Eleonora Duse. Mas agora eu é quem vos digo: “Onde não puderes amar não te demores”.

Tente partir antes que seu coração parta.

Não! Para tudo! Mudei de ideia!

Eu acho que você tem que demorar sim. Viver essa porra até o fim. Até não te restar mais ar.

Ora, se amar te tira o ar e desamar também, o melhor é morrer amando.

Você não come um bolo por inteiro? Você não toma uma cerveja por inteiro? Você não se entrega por inteiro aos seus projetos? Você não é tão inteiro?
Pois recomendo que viva esse amor por inteiro porque infelizmente seu amor não vai até onde vai o amor do outro.

É isso! Seu amor não vai até onde vai o amor do outro.

Viva seu amor que ele é problema seu.

Ame até não puder mais amar. E quando não puder mais amar, aí sim não te demores. Por favor.

Checklist

 

 

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{{Trilha sonora sugerida}}

Já passam da meia noite. Eu já tomei meus remédios, eu já cumpri TODAS as tarefas do dia – incluindo uma faxina extra no quarto. Já estou de pijama e decidi que hoje não escreverei carta de amor pra ninguém.

Coloquei um cd de música triste pra tocar e este foi o ultimo check que dei na lista do dia… que dia é hoje mesmo? Bom, hoje já é outro dia porque já passam de meia noite.

Abri minha agenda para ver as atividades de amanhã. Ou melhor, as atividades de hoje logo mais. Ir ao banco, levar documentos no contador, reunião na hora do almoço, reunião as 4 da tarde. Escrever um roteiro enquanto tomo um café. Pausa para o Pilates. Cumprir a meta de terminar o 2o capítulo daquele livro. Natação. Cinco minutos para tremer de frio. E aí o dia acaba. A noite vem e com ela a certeza de que só dormirei bem noite que vem.

A vida vai seguindo boa. Só a música que é triste. Porque sim.

Tem dias que viver é só cumprir as tarefas mesmo. E dá um gostinho bom ver aquela lista com os checks completinhos. Isso também é alegria. É saber que somos pontuais conosco.

Hoje em dia é tão difícil ser pontual com nosso coração.

Tem dias que eu abro a minha agenda para ver as tarefas e me surpreendo com um recadinho deixado por mim para mim mesma: pausa para dançar.

E esses recadinhos aparecem até no gerenciador de tarefas no meu celular para caso eu esteja muito entranhada nas atividades, lembrar de viver de dentro pra fora. E é por isso que vocês podem me ver dançando no meio da rua ou enquanto espero um ônibus. Tem uma música da Nina Simone que eu adoro dançar que diz assim: “Por que estou viva afinal? Porque o que eu tenho ninguém pode tirar. Eu tenho o meu cabelo, tenho minha cabeça tenho meu cérebro, tenho minhas orelhas, tenho meus olhos, tenho meu nariz, tenho minha boca, tenho meu sorriso…”

É uma música que causa uma sensação de alegria.

As músicas tristes eu gosto pra voltar pra dentro.

Uma da manhã, e eu sigo insone e acreditando na vida fora das agendas. Nas pessoas em como elas são fora das reuniões. Em como elas são melhores foras das reuniões e que em suas agendas tão corridas quanto a minha elas também possam se tirar pra dançar. Ou tirar alguém para dançar. Um desconhecido ou um amor.

E aquela música triste agora canta:

Nobody said it was easy.
No one ever said it would be so hard
I’m going back to the start.

Volto ao início da conversa. A agenda. Nela me deixo um recadinho para amanhã: “dar um bombom para alguém”.

Ninguém falou que viver seria fácil.
Mas eu acredito que não precisa ser tão difícil.

Sobre as riquezas do mundo

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Rico é quem tem tempo, rico é quem tem vontade, rico é quem sabe ler pensamento, ler olhares. Rico é quem tem amigos que são irmãos e amores que são pra sempre – o pra sempre acaba uma hora, mas o amor perdura no vento, no tempo.

Rico é quem tem coração aberto, a mente aberta, os braços abertos, a mão aberta.

Rico é quem encontra no meio de tanta crueldade um coração para morar. E ser mais rico ainda é ter a capacidade de morar em vários corações ao mesmo tempo.

Dizer “eu te amo” é uma riqueza. Ouvir “eu também te amo” é ganhar na loteria.

Dizer “estou aqui para o que der e vier” é ser rico. Compaixão e empatia são moedas impagáveis. Ter alguém que está para o que der e vier é ser rico. Muito rico.

Esquentar a mão de alguém é ser rico. Assim como esquentar a alma. Ganhar ou dar um beijo na testa é de uma riqueza infinita.

Olhar nos olhos de alguém e ver alí amor é estar rico.

Quando pensamos em alguém com saudade e afeto estamos nos enriquecendo de amor.

Quando alguém vem do nada em seu pensamento, acredito eu que esse alguém estava também pensando em você naquele exato microsegundo. E esse encontro metafísico é incrivelmente rico.

Amor não paga conta de luz, de agua, de energia…

Amor não mata fome. Amor dá fome.

Mas amor não tem prazo, não tem data de validade, não é parcelado, não tem juros.

Amor requer troca, sim, é verdade. Mas amor tem cabimento até onde não tem cabimento.

Ser rico é saber corresponder a um amor.

Riqueza material serve pra dar trabalho.

Riqueza de amor a gente mesmo gerencia sem precisar economizar.

E no final do dia chega a conta das despesas diárias com amor: abraços, sorrisos, cafunés, colo, ombro amigo… vem tudo descrito na fatura.

E o melhor: não tem códigos de barras que leitores de códigos de barras não conseguem ler. Não tem internet banking. Não tem banco.

Não precisa abrir uma conta em banco para ser rico.

Rico mesmo é quem abre o coração.

Sobre ser adulto, camas elásticas e sobrepeso

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{{ Trilha sonora sugerida }}

Um dia, recentemente, numa dessas viagens que eu faço à trabalho, acontecia uma festa na praça da cidade.
Tinha um pula-pula:

– Moço, eu posso ir?
– É só pra criança, senhora.
-Mas eu tenho um metro e meio.
-Mesmo assim não pode.
-Mas eu peso 45 quilos. – Fiz a carinha do gato de botas

Ele olhou pra mim de cima abaixo e respondeu
– Aonde…
– Olha moço, existem crianças gordas, tá? Se eu fosse criança eu estaria arrasada nesse momento. Só porque eu sou gorda eu não posso pular? Até parece que essa porra ia estourar com 70 quilos.

– Bote aí uns 80.
– Ah, vai tomar no cú!

Ser adulto é poder falar palavrão sem levar tapa de mãe.

Sobre vinho, olhares e corações

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{{ Trilha sonora sugerida}}

Hoje eu não tenho nada pra falar pra vocês.

Tomei 2 taças de vinho e fiquei pensativa. Eu não gosto de vinho, mas tem lugares e pessoas que merecem o ritual do brindar e do saborear: segurar a taça com a mão esquerda e permitir que os olhares se encontrem sinceramente.

Pensei que talvez adotarei esse ritual comigo mesma. Segurarei uma taça com o vinho que o cara do supermercado falar que é o melhor e me encararei no espelho, permitindo que meus olhos se encontrem e se olhem até meu coração acelerar – Vocês já repararam que quando qualquer olhar cruza com o nosso, nosso coração bate ligeiramente mais depressa?

É que quando olhos se olham, a gente entende um pedacinho da alma da outra pessoa. E isso dá medo às vezes. Mas basta o segundo brinde e, novamente, olhos nos olhos, a gente é capaz de fazer o encontro acontecer.

Eu preciso treinar olhar nos meus olhos para estar pronta para encontrar pedacinhos de alma dos outros.

Foi assim com abraço. Precisei ser abraçada milhões de vezes para entender que o significado do abraço é fazer os corações entrarem em harmonia. Abraço apertado serve pra isso. Peito no peito, coração com coração e o universo soprando em nossos ouvidos que a partir daquele momento, o coração de quem te abraça de verdade passa a bater dentro do seu coração também.

É preciso muita coragem para olhar dentro dos olhos de alguém. É preciso mais coragem ainda para permitir-se ser olhado. É que nossos segredos moram no olhar. E olhar pro segredo de alguém é tão… sei lá. Tão humano. É tão difícil ser humano.

Mas eu vou treinar. Vou me olhar nos olhos, encarar meus segredos e fazer um brinde à esse encontro.

Quando a gente se encontra, encontrar o próximo é delicioso.

Quem sabe depois de encararem segredos, você não ganha mais um coração batendo dentro do seu peito?

Mas hoje eu não tenho nada pra falar pra vocês.

Boa noite, meus amores.
Parece que vinho é um bom sonífero.

É que as vezes a vida dói…

 

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Hoje me escreveram assim: “É que as vezes a vida dói”.

Dói. Dói mesmo, little Darling.

Acontece que a vida dói desde o princípio. Dói desde quando começamos a ter um pinguinho de consciência. E dói muito quando somos expulsos da barriga da mãe. A primeira respiração é a que mais dói, mas depois acostumamos com o ar e até aprendemos que ele é vital.

Percebe? Deixar de doer é apenas uma questão de costume.

E mesmo depois de termos aprendido a respirar, te digo que logo logo a gente aprende a deixar de respirar. E que isso também é viver. Pois tem coisas na vida que são de tirar o fôlego. Coisas boas, entende? As coisas boas também doem, little Darling.

Amar dói. Aquela saudadezinha gostosa da infância dói. Um sorvete saborosíssimo também dói para quem tem os dentes sensíveis. A primeira tatuagem dói, mas certamente não será a ultima e nem a que doeu mais. Tomar uns goles a mais do seu vinho predileto também pode doer logo na manhã seguinte. Sexo sem os devidos cuidados também dói. Usar um sapato bonito pode doer também. Assim como andar descalça.

Não temos muitas opções para a ‘não-dor’. Existem os anestésicos, os anti-inflamatórios, os antidepressivos e os remédios para dormir. Mas depois que passa seus efeitos, voltamos à condição de dor.

Eu por exemplo, vivo com uma inflamação na alma e apesar de haver dias em que eu deseje ardentemente não existir, não tem um dia sequer que eu deseje que essa inflamação passasse a ser uma inflamação na garganta, por exemplo, que é certamente mais fácil de tratar.

Te digo: fui um desafio para psiquiatras e terapeutas por causa dessa tal condição na alma, mas o único caminho para a cura que encontrei foi assumir que a vida dói mesmo. O tempo todo. Mas apesar disso, os dias vão passando e eu ficando mais forte. Calejada, mas não insensível. A vida caleja mesmo nossos corações. E não é que os danados continuam a doer? Ainda bem.

Digo “ainda bem” porque se sinto dor é porque a vida pulsa em mim.

Se meu coração dói, mesmo calejado, é porque ainda tem espaço para o amor e caridade.

Às vezes penso que eu estou aqui reclamando de uma dorzinha no meu ventrículo esquerdo, onde você mora, no meu quarto com ar condicionado, escrevendo palavras em um computador moderno dizendo que a vida me dói, enquanto alí, do outro lado do oceano, bombas estão sendo jogadas em casas de civis, pessoas se explodindo pra explodir outras pessoas, tantos recursos sendo desperdiçados para o mau estar da civilização, e eu aqui falando que a vida me dói.

Eu já fui pra uma guerra e te digo: sou incapaz de dizer que a minha dor é maior ou menor. Cada um sabe de si. Mas na guerra as pessoas lembram que estão vivas o tempo todo porque vêem outras pessoas morrendo o tempo todo. E nessa situação eu não sei se eu mesma teria forças para lembrar de viver. As pessoas que vi, lutavam para sobreviver à dor na carne para viverem a dor de reconstruir um vazio. E então eu entendi que na guerra ou na paz, vamos sempre doer. Porque a dor nos tira da inércia. E é contra a inércia a nossa guerra.

Mas estou aqui. No conforto. E a vida me dói sim. O tempo todo.

Me dói saber que você não está por perto. E logo essa dor passa e virá outra.

Mas é como o ar… a gente acostuma.