O resto das minhas verdades

* publicado originalmente em 2010, no site feminino Mundo Ela

lovefuck

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Não, você não foi o amor da minha vida. Foi apenas um amor pobre, desses que se pode medir exatamente onde acaba.

Também não sei dizer se foi uma paixão avassaladora. Porque não me entreguei como aqueles que julgam saber dizem. Não te desejei como deveria desejar porque é do desejo que nascem as angústias.

Mas não se preocupe porque não encaro nada como uma farsa. Não, meu bem, eu não me sinto traída. Quer dizer, não por você.

Mulher, meu caro, é bicho mau, que trai a si mesma apenas por um segundo de prazer. Se fui traída nessa historia foi por mim mesma. Sabe como é, as vezes é difícil estar e , principalmente, ser carente.

Não sei se ficou claro que, se você me usou pelo buraco que tenho entre as pernas, eu te usei pelo buraco que carrego bem no meio do peito. E precisa pedir desculpas por me achar mais esperta? Porque se você conhece bem as mulheres, poderá concordar que se elas fingem que gostam, fingem melhor ainda que não gostam.

E então, eu fazia graça pra você. Olhava em seus olhos procurando alguma verdade – porque é lá que elas moram – enquanto você procurava as melhores palavras para ofuscar suas mentiras. “Meu amor é infinito”.

Mesmo sabendo de seu esforço de ator canastrão, daqueles que espremem o sentimento, a única coisa que me passava pela cabeça era como você é burro! Porque, meu bem, só pode ser burrice querer medir forças com o infinito.

Aliás, eu não sei se os homens compreendem bem o significado de infinito. Permita-me explicar-lhe e, apesar de tudo, tente entender.

O infinito é o espaço em branco de uma reta pontilhada. Quando um pontinho acaba, logo em seguida outro ponto acontece. E isso vai acontecendo até a reta fazer a curva. Deu pra entender? Isso quer dizer, meu bem, que mesmo sendo um espaço em branco, o infinito não é vazio como suas juras de amor.

Agora me responda: se amor passa, pra que serve senti-lo?

Sabe de uma coisa? A gente tem é que parar de acreditar nessas bobagens de amor infinito. Porque amores duram o tanto quanto duram. E vão durando até a reta fazer a curva. E de novo, e de novo…

Deu pra entender isso também? Que serve sentir amor só pra sentir outra vez…

Não. Não pense que eu não gostava de você. É bobagem aquela coisa que, em um relacionamento, sempre tem um lado que gosta mais. Se a corda rompe do lado mais frágil é porque o lado frágil já se desgastou.

A vida não é poesia, não. Quer dizer, poderia ser. Mas de verdade? Não é.

Mas enfim, eu ia dizendo pra você não achar que eu não gostava de você. Claro que gostava. Se muito ou pouco? Isso é relativo a começar pelo infinito que você acredita e eu nunca acreditei.

Se você gostava muito de mim, eu fiz muito ao gostar de você.

Desculpa, não quis ser grossa.  Mas eu sei  que gostei de você porque esqueci de não gostar de mim.

E se o jogo aqui é o da sinceridade, vou continuar jogando. Jogando as coisas na sua cara, entendeu? Porque eu gostei de você, das suas viagens alucinógenas, das suas loucuras e modismos mesmo sabendo que você nunca engoliu a minha caretice. Porque tenho certeza que, pra você, eu fui chata, certinha e sem graça. Uma babaca completa.

Mas não tem nada não. Pra mim, eu sempre estive na vantagem, já que te usei pra preencher aquele vazio no meio do peito.

Eu admito: sou uma babaca. Porém, no nosso contrato de não amor, eu era uma babaca satisfeita.

Não, meu bem. Eu não estou exagerando na dose. E depois, exagero é um recurso literário muito mais que justo. Principalmente em um desabafo.

O meu único ressentimento é que de todos os defeitos que você reparou em mim, você nunca se deu conta de que eu sou louca.

Ser normal é over. E eu sempre detestei que você me visse assim, como apenas mais  uma na multidão. Sempre odiei o fato de parecer normal. Mesmo de perto.

Você nunca percebeu que eu não faço questão nenhuma de ser uma louca humilde. Sou Tão louca que fiz questão de comprimir a porra do meu coração, até que ele diminuísse de tamanho, pra você não assustar.

Mas eu vou continuar fingindo que não gosto de você. So pra um dia, quem sabe, eu acreditar.

 

 

 

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