Sobre vinho, olhares e corações

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Hoje eu não tenho nada pra falar pra vocês.

Tomei 2 taças de vinho e fiquei pensativa. Eu não gosto de vinho, mas tem lugares e pessoas que merecem o ritual do brindar e do saborear: segurar a taça com a mão esquerda e permitir que os olhares se encontrem sinceramente.

Pensei que talvez adotarei esse ritual comigo mesma. Segurarei uma taça com o vinho que o cara do supermercado falar que é o melhor e me encararei no espelho, permitindo que meus olhos se encontrem e se olhem até meu coração acelerar – Vocês já repararam que quando qualquer olhar cruza com o nosso, nosso coração bate ligeiramente mais depressa?

É que quando olhos se olham, a gente entende um pedacinho da alma da outra pessoa. E isso dá medo às vezes. Mas basta o segundo brinde e, novamente, olhos nos olhos, a gente é capaz de fazer o encontro acontecer.

Eu preciso treinar olhar nos meus olhos para estar pronta para encontrar pedacinhos de alma dos outros.

Foi assim com abraço. Precisei ser abraçada milhões de vezes para entender que o significado do abraço é fazer os corações entrarem em harmonia. Abraço apertado serve pra isso. Peito no peito, coração com coração e o universo soprando em nossos ouvidos que a partir daquele momento, o coração de quem te abraça de verdade passa a bater dentro do seu coração também.

É preciso muita coragem para olhar dentro dos olhos de alguém. É preciso mais coragem ainda para permitir-se ser olhado. É que nossos segredos moram no olhar. E olhar pro segredo de alguém é tão… sei lá. Tão humano. É tão difícil ser humano.

Mas eu vou treinar. Vou me olhar nos olhos, encarar meus segredos e fazer um brinde à esse encontro.

Quando a gente se encontra, encontrar o próximo é delicioso.

Quem sabe depois de encararem segredos, você não ganha mais um coração batendo dentro do seu peito?

Mas hoje eu não tenho nada pra falar pra vocês.

Boa noite, meus amores.
Parece que vinho é um bom sonífero.

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É que as vezes a vida dói…

 

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Hoje me escreveram assim: “É que as vezes a vida dói”.

Dói. Dói mesmo, little Darling.

Acontece que a vida dói desde o princípio. Dói desde quando começamos a ter um pinguinho de consciência. E dói muito quando somos expulsos da barriga da mãe. A primeira respiração é a que mais dói, mas depois acostumamos com o ar e até aprendemos que ele é vital.

Percebe? Deixar de doer é apenas uma questão de costume.

E mesmo depois de termos aprendido a respirar, te digo que logo logo a gente aprende a deixar de respirar. E que isso também é viver. Pois tem coisas na vida que são de tirar o fôlego. Coisas boas, entende? As coisas boas também doem, little Darling.

Amar dói. Aquela saudadezinha gostosa da infância dói. Um sorvete saborosíssimo também dói para quem tem os dentes sensíveis. A primeira tatuagem dói, mas certamente não será a ultima e nem a que doeu mais. Tomar uns goles a mais do seu vinho predileto também pode doer logo na manhã seguinte. Sexo sem os devidos cuidados também dói. Usar um sapato bonito pode doer também. Assim como andar descalça.

Não temos muitas opções para a ‘não-dor’. Existem os anestésicos, os anti-inflamatórios, os antidepressivos e os remédios para dormir. Mas depois que passa seus efeitos, voltamos à condição de dor.

Eu por exemplo, vivo com uma inflamação na alma e apesar de haver dias em que eu deseje ardentemente não existir, não tem um dia sequer que eu deseje que essa inflamação passasse a ser uma inflamação na garganta, por exemplo, que é certamente mais fácil de tratar.

Te digo: fui um desafio para psiquiatras e terapeutas por causa dessa tal condição na alma, mas o único caminho para a cura que encontrei foi assumir que a vida dói mesmo. O tempo todo. Mas apesar disso, os dias vão passando e eu ficando mais forte. Calejada, mas não insensível. A vida caleja mesmo nossos corações. E não é que os danados continuam a doer? Ainda bem.

Digo “ainda bem” porque se sinto dor é porque a vida pulsa em mim.

Se meu coração dói, mesmo calejado, é porque ainda tem espaço para o amor e caridade.

Às vezes penso que eu estou aqui reclamando de uma dorzinha no meu ventrículo esquerdo, onde você mora, no meu quarto com ar condicionado, escrevendo palavras em um computador moderno dizendo que a vida me dói, enquanto alí, do outro lado do oceano, bombas estão sendo jogadas em casas de civis, pessoas se explodindo pra explodir outras pessoas, tantos recursos sendo desperdiçados para o mau estar da civilização, e eu aqui falando que a vida me dói.

Eu já fui pra uma guerra e te digo: sou incapaz de dizer que a minha dor é maior ou menor. Cada um sabe de si. Mas na guerra as pessoas lembram que estão vivas o tempo todo porque vêem outras pessoas morrendo o tempo todo. E nessa situação eu não sei se eu mesma teria forças para lembrar de viver. As pessoas que vi, lutavam para sobreviver à dor na carne para viverem a dor de reconstruir um vazio. E então eu entendi que na guerra ou na paz, vamos sempre doer. Porque a dor nos tira da inércia. E é contra a inércia a nossa guerra.

Mas estou aqui. No conforto. E a vida me dói sim. O tempo todo.

Me dói saber que você não está por perto. E logo essa dor passa e virá outra.

Mas é como o ar… a gente acostuma.