É que as vezes a vida dói…

 

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Hoje me escreveram assim: “É que as vezes a vida dói”.

Dói. Dói mesmo, little Darling.

Acontece que a vida dói desde o princípio. Dói desde quando começamos a ter um pinguinho de consciência. E dói muito quando somos expulsos da barriga da mãe. A primeira respiração é a que mais dói, mas depois acostumamos com o ar e até aprendemos que ele é vital.

Percebe? Deixar de doer é apenas uma questão de costume.

E mesmo depois de termos aprendido a respirar, te digo que logo logo a gente aprende a deixar de respirar. E que isso também é viver. Pois tem coisas na vida que são de tirar o fôlego. Coisas boas, entende? As coisas boas também doem, little Darling.

Amar dói. Aquela saudadezinha gostosa da infância dói. Um sorvete saborosíssimo também dói para quem tem os dentes sensíveis. A primeira tatuagem dói, mas certamente não será a ultima e nem a que doeu mais. Tomar uns goles a mais do seu vinho predileto também pode doer logo na manhã seguinte. Sexo sem os devidos cuidados também dói. Usar um sapato bonito pode doer também. Assim como andar descalça.

Não temos muitas opções para a ‘não-dor’. Existem os anestésicos, os anti-inflamatórios, os antidepressivos e os remédios para dormir. Mas depois que passa seus efeitos, voltamos à condição de dor.

Eu por exemplo, vivo com uma inflamação na alma e apesar de haver dias em que eu deseje ardentemente não existir, não tem um dia sequer que eu deseje que essa inflamação passasse a ser uma inflamação na garganta, por exemplo, que é certamente mais fácil de tratar.

Te digo: fui um desafio para psiquiatras e terapeutas por causa dessa tal condição na alma, mas o único caminho para a cura que encontrei foi assumir que a vida dói mesmo. O tempo todo. Mas apesar disso, os dias vão passando e eu ficando mais forte. Calejada, mas não insensível. A vida caleja mesmo nossos corações. E não é que os danados continuam a doer? Ainda bem.

Digo “ainda bem” porque se sinto dor é porque a vida pulsa em mim.

Se meu coração dói, mesmo calejado, é porque ainda tem espaço para o amor e caridade.

Às vezes penso que eu estou aqui reclamando de uma dorzinha no meu ventrículo esquerdo, onde você mora, no meu quarto com ar condicionado, escrevendo palavras em um computador moderno dizendo que a vida me dói, enquanto alí, do outro lado do oceano, bombas estão sendo jogadas em casas de civis, pessoas se explodindo pra explodir outras pessoas, tantos recursos sendo desperdiçados para o mau estar da civilização, e eu aqui falando que a vida me dói.

Eu já fui pra uma guerra e te digo: sou incapaz de dizer que a minha dor é maior ou menor. Cada um sabe de si. Mas na guerra as pessoas lembram que estão vivas o tempo todo porque vêem outras pessoas morrendo o tempo todo. E nessa situação eu não sei se eu mesma teria forças para lembrar de viver. As pessoas que vi, lutavam para sobreviver à dor na carne para viverem a dor de reconstruir um vazio. E então eu entendi que na guerra ou na paz, vamos sempre doer. Porque a dor nos tira da inércia. E é contra a inércia a nossa guerra.

Mas estou aqui. No conforto. E a vida me dói sim. O tempo todo.

Me dói saber que você não está por perto. E logo essa dor passa e virá outra.

Mas é como o ar… a gente acostuma.

 

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